Revisão Sistemática e Metanálise sobre traumas orais e maxilofaciais em mulheres vítimas de violência masculina

Autores

  • Célio Leone Ferreira Soares Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri https://orcid.org/0000-0002-4895-3586
  • Marina Rocha Fonseca Souza Universidade Federal de Minas Gerais
  • Moisés Willian Aparecido Gonçalves Universidade Estadual de Campinas
  • Glaciele Maria de Souza Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri
  • Ighor Andrade Fernandes Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri
  • Endi Lanza Galvão Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri
  • Saulo Gabriel Moreira Falci Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

DOI:

https://doi.org/10.61217/rcromg.v22.563

Palavras-chave:

violência contra mulheres, violência por parceiro íntimo, violência baseada no gênero, ferimentos na cabeça

Resumo

Introdução: A Organização Mundial da Saúde categoriza a violência por parceiro íntimo (VPI) como uma experiência autodeclarada de um ou mais atos de violência física e/ou sexual por um parceiro atual ou anterior, relatada por mulheres. A literatura atual sobre saúde da mulher e violência doméstica revela que 27% das mulheres entre 15 e 49 anos sofreram violência física ou sexual por parte de seus maridos ou parceiros íntimos em algum momento da vida. Embora a violência contra mulheres tenha aumentado em frequência e gravidade ao longo dos anos, essa não é uma questão contemporânea. A amplitude desse problema é global e vai além da violação dos direitos humanos, afetando os aspectos psicossociais, econômicos e de saúde das mulheres, com raízes na disparidade de força física entre os sexos. Os traumas bucais e maxilofaciais (TBMF) surgem como uma das principais sequelas da violência interpessoal, com o rosto sendo a região mais frequentemente afetada após episódios violentos. O rosto desempenha um papel significativo na socialização e autoestima dos indivíduos, além de funções fisiológicas essenciais, como deglutição, mastigação, respiração e comunicação. Portanto, os TBMF podem acarretar consequências emocionais e funcionais para as vítimas, agravadas pela possibilidade de deformidades permanentes. No entanto, as evidências sobre a prevalência global e características dos TBMF em mulheres especificamente agredidas por homens permanecem escassas na literatura científica. Dados epidemiológicos dessa natureza são fundamentais para embasar políticas de saúde, estratégias de prevenção e tratamento, bem como para melhorar a organização dos serviços de saúde. Objetivo: aprofundar a investigação das características e analisar a prevalência global de traumas bucomaxilofaciais que afetam mulheres que tenham sido vítimas de violência física perpetrada por homens. Metodologia: Realizou-se buscas nas bases de dados Medline (via PubMed; pubmed.gov) e Biblioteca Virtual em Saúde (bvsalud.org) até 16 de junho de 2020 (atualizado em 12 de fevereiro de 2021), sem restrições quanto ao ano de publicação ou idioma. Utilizou-se termos MeSH, palavras-chave e outros termos relacionados a violência doméstica, violência por parceiro íntimo, violência contra a mulher e traumas bucomaxilofaciais, combinando-os com operadores booleanos (OU, E). Além disso, foi consultada a literatura cinza por meio dos sites OpenGrey e Google Scholar. As referências dos artigos selecionados foram revisadas manualmente em busca de estudos adicionais relevantes, considerando apenas uma vez os artigos encontrados em múltiplas bases de dados. Resultados: No processo de pesquisa, que envolveu a consulta a bases de dados eletrônicas e literatura cinza, foram identificadas um total de 3761 referências, e 1703 duplicadas e foram eliminadas. Após análise dos títulos e resumos, 2058 estudos permaneceram para avaliação, sendo 652 considerados elegíveis para acesso aos textos completos, finalizando com 27 estudos que foram incluídos nesta revisão sistemática. Os 27 estudos abrangem dez países diferentes em três continentes distintos. A maioria dos estudos é proveniente das Américas, especialmente dos Estados Unidos da América (EUA), representando 51,8% do total, seguido pelo Brasil, com 18,5%. Quatro estudos foram conduzidos na Ásia, abrangendo o Iraque, a Índia, a China e a Malásia. E três estudos da Europa, sendo eles da Grécia, Espanha e Portugal. Não foram encontrados estudos elegíveis provenientes da Oceania e da África. O período de publicação dos estudos varia desde 1977 até 2018. Quanto ao desenho de pesquisa, 26 estudos eram do tipo transversal, e um era um estudo caso-controle, onde 16 relataram o número de mulheres agredidas, e 20 informaram o número de lesões resultantes das agressões. Um total de 15.615 mulheres foram agredidas, sendo que 9.318 delas foram vítimas de agressões cometidas por homens, das quais 3.738 apresentaram traumas bucomaxilofaciais (TBMF). O estudo com o maior número de mulheres incluídas contou com 4.051 participantes, enquanto o menor envolveu 26 mulheres. As idades das mulheres agredidas variaram de zero a 90 anos, e seu estado civil abrangia desde solteiras vivendo com parceiros, casadas, separadas/divorciadas até viúvas. Quanto à relação entre agressores e vítimas, variou entre marido, namorado, ex-marido ou membro da família. Um estudo apontou o ciúmes como causa da agressão. Somente dois estudos informaram a localização de residência das mulheres, com a maioria sendo de áreas urbanas ou semiurbanas (67,3%), 31,8% de áreas rurais e 0,9% com origem desconhecida. Em oito artigos (29,62%), foi relatada a presença de TBMF antes do trauma investigado. A prevalência de TBMF entre as mulheres agredidas variou amplamente, de 6,3% a 100%. Onze estudos (42,30%) forneceram dados apenas sobre o número de TBMF, não mencionando o número de mulheres com diagnóstico de TBMF. Portanto, esses 11 estudos foram excluídos da meta-análise. Nos outros 16 estudos, a prevalência total de TBMF nas mulheres agredidas foi de 94% (IC95%: 66% - 99%). A prevalência de TBMF entre todos os traumas em mulheres foi de 51% (IC95%: 28% - 74%). Não houve diferença significativa na chance de ocorrência entre lesões em tecidos moles e lesões em tecidos duros. Todas as metanálises mostraram alta heterogeneidade. A prevalência de TBMF em mulheres agredidas nas Américas foi de 52%, enquanto na Ásia foi de 49%. Não foi possível estimar essa prevalência na Europa, África e Oceania devido à falta de estudos ou diferenças metodológicas. Na avaliação do risco de viés dos 27 estudos, apenas um foi considerado de alta qualidade, 18 de qualidade intermediária e oito de baixa qualidade. Nenhum dos estudos utilizou amostragem probabilística, e não foram identificadas evidências de viés de publicação na análise da prevalência geral de TBMF ou no tipo de tecido lesionado. Conclusão: constatou-se que 51% das mulheres agredidas por homens apresentaram TBMF. A maioria das agressões ocorreu no âmbito de relacionamentos íntimos e familiares. Isso reforça a necessidade crucial de implementar e aperfeiçoar políticas públicas destinadas a proteger as mulheres contra a violência de gênero em todo o mundo, a fim de enfrentar os diversos problemas decorrentes desse tipo de agressão.

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Publicado

2024-02-22

Como Citar

Soares, C. L. F., Souza, M. R. F., Gonçalves, M. W. A., Souza, G. M. de, Fernandes, I. A., Galvão, E. L., & Falci, S. G. M. (2024). Revisão Sistemática e Metanálise sobre traumas orais e maxilofaciais em mulheres vítimas de violência masculina. REVISTA DO CROMG, 22(Supl.4). https://doi.org/10.61217/rcromg.v22.563