Atuação do cirurgião-dentista no contexto de violência contra a mulher: Minimizando os impactos das agressões

Autores

  • Millena Jardim Vieira Universidade Federal de Minas Gerais
  • Amália Moreno
  • Célia Regina Moreira Lanza
  • Roselaine Moreira Coelho Milagres
  • Silvilene Giovane Martins Pereira
  • Francisca Daniele Moreira Jardilino

DOI:

https://doi.org/10.61217/rcromg.v22.336

Palavras-chave:

violência contra a mulher, violência doméstica, extensão comunitária, integralidade em saúde

Resumo

Introdução: A violência se caracteriza pelo uso intencional de força física ou poder contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo, atingindo indivíduos de todas as idades e gêneros, sendo considerado um grave problema de saúde pública. Por sua vez, a violência contra a mulher, seja em âmbito familiar ou comunitário, é um problema com alta magnitude e prevalência, que desencadeia repercussões físicas, psicológicas e sociais, uma vez que as agressões prejudicam a saúde, tanto pelas lesões resultantes quanto pelo potencial de desenvolverem dores crônicas, depressão e baixa autoestima. É reconhecida como uma manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre os gêneros, sendo que de acordo com os dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 40% das mulheres brasileiras já foram vítimas de violência em algum momento da vida. Nesse contexto, intervenções incisivas tornam-se fundamentais, a fim de minimizar os impactos das agressões, incluindo ações multidisciplinares e intersetoriais, como tratamento e acompanhamento médico, odontológico e psicológico, além da assistência social e a tutela do Estado para que seus direitos sejam resguardados. Pautado nisso, o Projeto de Extensão Sororidade na Odontologia foi criado em 2021 na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais, com o intuito de acolher, de forma humanizada, mulheres em situação de violência, prestando assistência odontológica integral. Objetivos: O objetivo do presente relato de experiência é demonstrar como o Projeto de Extensão Sororidade na Odontologia presta atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica, auxiliando na retomada da autoestima, ao mesmo tempo trabalha a temática violência no campo da saúde, pautada no acolhimento e integralidade do atendimento, para o discente de Odontologia. Atividades desenvolvidas: O projeto se associou a casas de permanência provisória e ONG’s, que atuam na causa da violência contra as mulheres, e nos encaminham mulheres em situações de vulnerabilidade e com interesse e/ou necessidade em receber atendimento odontológico. Além disso, mulheres que buscam voluntariamente o projeto, seja presencialmente ou por meio do nosso WhastApp, também são acolhidas. Assim, a equipe do projeto, que é composta por 6 discentes voluntárias, 1 discente bolsista, 4 docentes e 1 profissional da área do direito, agenda uma consulta, proporcionando uma escuta qualificada, onde o levantamento de necessidades e um plano de tratamento integral e individualizado é elaborado. A partir disso, consultas quinzenais são realizadas, sempre com a mesma discente, a fim de favorecer a criação de vínculo e, consequentemente, a efetivação dos cuidados demandados. As discentes voluntárias que atuam no projeto atendem em dupla e se revezam semanalmente entre operadora e auxiliar, sempre supervisionadas pelas docentes, sendo que cada uma está vinculada a uma paciente, isso explica os agendamentos quinzenais. Após finalizar os tratamentos propostos, as pacientes são colocadas em manutenção preventiva, onde retornos a cada 6 meses são propostos. Pondera-se que todos os procedimentos de atenção primária ofertados e realizados no desenrolar do projeto são gratuitos. Visando prestar uma assistência multidisciplinar, o projeto encontra-se em contato com a Psicologia da instituição, estudando formas de incorporar atendimentos psicológicos durante a permanência das mulheres na faculdade. Outro ponto amplamente discutido semanalmente no projeto é o fato de que o cirurgião-dentista exibe um importante papel na identificação de possíveis vítimas, acompanhamento e notificação de violência aos órgãos competentes, visto que a região mais acometida pelas agressões é a região de cabeça e pescoço, devido à exposição e simbolismo dessa região corporal. Resultados: Mais de 30 mulheres, de todas as regiões do Brasil e até de países latino-americanos, já foram atendidas e beneficiadas com as atividades do projeto desde a sua criação. Assim como cerca de 24 discentes voluntárias já participaram do projeto e ofertaram assistência odontológica. No decorrer das consultas observou-se à criação de vínculo entre alunas e pacientes, o que favoreceu de forma relevante a execução e finalização dos tratamentos propostos. A melhora na autoestima das mulheres, conforme relatado por elas, bem como maior abertura para comunicação interpessoal e a obtenção de melhores condições de saúde oral mensuram o impacto positivo do projeto, embasado na nossa observação frente ao comportamento das pacientes ao longo das consultas. Houve repercussões positivas também entre os discentes, pois uma reflexão da amplitude que deve ser a prática odontológica, além de discussões sobre o papel da mulher na sociedade foram propostas. Considerações finais: Mediante ao exposto, conclui-se que proporcionar acolhimento e atendimentos odontológicos às mulheres vítimas de violência doméstica pode minimizar os impactos negativos das agressões, favorecendo inclusive no restabelecimento da autoestima e na promoção da saúde. Além disso, viabiliza uma formação mais ampla dos futuros profissionais cirurgiões-dentistas, a fim de que compreendam a magnitude de sua profissão no reconhecimento e enfrentamento da violência contra a mulher e tornaram-se mais preparados para oferecer um tratamento humanizado, integral e de qualidade. Pondera-se que para realizar intervenções que considerem a integralidade das mulheres, uma equipe multidisciplinar e multiprofissional é necessária, visto que as repercussões das agressões são observadas em diferentes âmbitos, como psicológico, social e físico.

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Publicado

2024-01-25

Como Citar

Jardim Vieira, M., Moreno, A., Lanza, C. R. M., Milagres, R. M. C., Pereira, S. G. M., & Jardilino, F. D. M. (2024). Atuação do cirurgião-dentista no contexto de violência contra a mulher: Minimizando os impactos das agressões . REVISTA DO CROMG, 22(Supl.3). https://doi.org/10.61217/rcromg.v22.336