Percepção parental e impacto psicossocial da má oclusão em crianças
evidências clínicas e implicações para o tratamento ortodôntico
DOI:
https://doi.org/10.61217/rcromg.v25.758Palabras clave:
qualidade de vida, má oclusão, crianças, índice de necessidade de tratamento ortodônticoResumen
Introdução: A má oclusão é uma condição prevalente na infância, caracterizada por alterações no posicionamento dos dentes e na relação entre as arcadas dentárias, resultantes da interação de fatores genéticos e ambientais. Essa condição pode acarretar consequências funcionais, como dificuldades na mastigação, fala e deglutição, além de comprometer aspectos estéticos e psicossociais. Evidências científicas apontam que a má oclusão pode impactar negativamente a qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), especialmente em crianças, influenciando sua autoestima, interação social e bem-estar emocional. Além disso, o impacto da má oclusão não se restringe às crianças, estendendo-se também aos seus familiares, particularmente aos pais ou responsáveis, que frequentemente desempenham papel decisivo na busca por tratamento ortodôntico. A percepção parental sobre a necessidade de tratamento pode ser influenciada tanto pela gravidade clínica da má oclusão quanto por fatores subjetivos, como preocupações estéticas e emocionais. Nesse contexto, compreender a relação entre a condição clínica, a percepção dos pais e os impactos na qualidade de vida torna-se essencial para o planejamento de estratégias de cuidado mais eficazes e centradas no paciente. Apesar do crescente interesse pelo tema, ainda existem lacunas na literatura quanto à integração entre indicadores clínicos normativos e a percepção dos cuidadores, especialmente no que se refere ao impacto familiar. Assim, estudos que explorem essas dimensões de forma conjunta são fundamentais para ampliar a compreensão sobre os determinantes da busca por tratamento ortodôntico na infância. Objetivo: Investigar a relação entre a gravidade da má oclusão, avaliada por índices clínicos, e a percepção dos pais quanto à necessidade de tratamento ortodôntico em crianças, bem como analisar os impactos dessa condição na qualidade de vida relacionada à saúde bucal, com ênfase nos domínios familiar e psicossocial. Metodologia: Trata-se de um estudo transversal analítico, conduzido com uma amostra de conveniência composta por 99 crianças com idades entre 5 e 12 anos, atendidas em uma clínica de odontopediatria. Foram incluídas crianças com bom estado geral de saúde, sendo excluídas aquelas com condições médicas graves ou distúrbios neuropsicomotores que pudessem interferir na participação no estudo. Os dados sociodemográficos foram obtidos por meio de questionário aplicado aos pais ou responsáveis, incluindo informações sobre sexo, idade, escolaridade do cuidador, renda familiar e situação ocupacional. A qualidade de vida relacionada à saúde bucal foi avaliada utilizando o instrumento Brazilian Early Childhood Oral Health Impact Scale (B-ECOHIS), composto por 13 itens distribuídos em domínios relacionados à criança e à família. Para análise, as respostas foram categorizadas em “sem impacto” e “com impacto”, sendo excluídas respostas “não sei”. A avaliação clínica da má oclusão foi realizada por examinadores previamente treinados e calibrados (Kappa = 0,83), utilizando o Índice de Necessidade de Tratamento Ortodôntico (IOTN), nos componentes estético (AC) e de saúde dentária (DHC), além do Índice de Estética Dentária (DAI), que permitiu identificar características específicas como apinhamento, sobressaliência, sobremordida, mordida aberta e cruzada. A análise estatística incluiu estatística descritiva, teste de Qui-quadrado para associações bivariadas e modelos de regressão para identificação de fatores associados à percepção parental de necessidade de tratamento ortodôntico. O nível de significância adotado foi de 5%. Resultados: A amostra foi composta por 99 crianças, com média de idade de 8,23 anos, sendo 48,5% do sexo feminino. Em relação às características clínicas, observou-se maior prevalência de apinhamento dentário (40,4%), seguido por sobressaliência aumentada (28,3%) e sobremordida aumentada (26,3%). A análise da associação entre a necessidade de tratamento ortodôntico, baseada no IOTN, e o impacto na qualidade de vida, avaliado pelo B-ECOHIS, não revelou associação estatisticamente significativa nos domínios relacionados diretamente às crianças (p > 0,05). No entanto, foi observada associação significativa entre a presença de má oclusão e o domínio familiar, especificamente no que se refere à aflição dos cuidadores (p ≤ 0,041), indicando impacto emocional relevante nos responsáveis. Na análise multivariada, verificou-se que o sexo feminino esteve associado a uma maior percepção parental de necessidade de tratamento ortodôntico. Além disso, características clínicas específicas da má oclusão, como sobremordida, sobressaliência, apinhamento, ausência dentária e sobremordida negativa, mostraram-se associadas ao aumento da probabilidade de indicação de tratamento, tanto nos componentes estéticos quanto clínico do IOTN. Esses resultados sugerem que a percepção dos pais não se baseia exclusivamente na avaliação clínica normativa, sendo também influenciada por fatores subjetivos e pela presença de características visíveis da má oclusão. Ademais, o impacto emocional observado no domínio familiar reforça a importância de considerar a dimensão psicossocial no manejo clínico dessas condições. Conclusão : Os achados deste estudo demonstram que a percepção dos pais quanto à necessidade de tratamento ortodôntico em crianças está associada à gravidade da má oclusão e a características clínicas específicas, além de refletir impacto significativo no âmbito emocional familiar. Embora não tenha sido observada associação entre a má oclusão e os domínios da qualidade de vida diretamente relacionados à criança, o impacto no bem-estar dos cuidadores evidencia a relevância dos aspectos psicossociais no contexto da saúde bucal infantil.
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