Prevalência de bruxismo em usuários de medicamentos serotoninérgicos
um estudo transversal retrospectivo
DOI:
https://doi.org/10.61217/rcromg.v25.742Palavras-chave:
bruxismo, ansiolíticos, inibidores seletivos da recaptação de serotoninaResumo
Introdução: O bruxismo é uma condição caracterizada pela hiperatividade repetitiva da musculatura mastigatória, podendo se manifestar pelo hábito involuntário de ranger e/ou apertar os dentes e por movimentos de contração ou protusão da mandíbula, independente da presença dos dentes (Thomas et al., 2026). De acordo com o ciclo circadiano em que ocorre, pode ser classificado em bruxismo em vigília e bruxismo do sono (Manfredini et al., 2024). Possui etiologia multifatorial, envolvendo fatores psicossociais, genéticos, neurológicos, farmacológicos e em menor proporção, fatores oclusais (Colonna et al., 2025). Dentre os fatores etiológicos descritos na literatura, vem sendo amplamente estudado sobre a associação entre antidepressivos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN) com o desencadeamento ou agravamento do bruxismo (Melo et al., 2018; Santos et al., 2026). Objetivos: Este estudo teve como objetivo identificar a prevalência de bruxismo em pacientes usuários de ISRS/IRSN atendidos em uma clínica-escola de odontologia entre os anos de 2013 e 2024. Como objetivos secundários avaliou-se a possível associação do bruxismo com os fatores ocupação e gênero. Metodologia: Trata-se de um estudo transversal, realizado a partir da coleta de dados em prontuários de pacientes atendidos na Clínica de Disfunção Temporomandibular (DTM) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), entre 2013 e 2024. Foi adotada uma amostra de conveniência, considerando todos os pacientes cujos prontuários atenderam aos critérios de inclusão. Para serem incluídos no estudo, os pacientes precisavam ter idade igual ou superior a 18 anos, hipótese diagnóstica de bruxismo e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Prontuários incompletos ou com informações insuficientes sobre medicação ou diagnóstico foram excluídos. O desfecho primário analisado foi a prevalência de usuários de ISRS/IRSN com diagnóstico de bruxismo na clínica de DTM da UFVJM. Já o secundário foi a possível associação do bruxismo com fatores como idade, sexo e ocupação. A análise foi realizada no SPSS® 26.0, com estatística descritiva e teste qui-quadrado de Pearson. A regressão logística estimou odds ratio (OR) e IC95% para fatores associados ao bruxismo (autorrelato + desgaste dentário). Variáveis com p < 0,30 foram incluídas no modelo simples e aquelas com p < 0,05 no modelo múltiplo (método Forward), adotando-se significância de 5% (Santos et al., 2026). Resultados: Foram analisados 583 prontuários de pacientes atendidos entre maio de 2024 e junho de 2025, com média de idade de 35,16 anos (variação de 10 a 89 anos). Entre os sinais e sintomas relacionados às DTMs, destacaram-se os distúrbios musculares, como mialgia localizada (n = 130; 31,3%) e dor miofascial (n = 62; 14,9%), além de alterações articulares, como deslocamento de disco com redução (n = 167; 40,2%) e sem redução (n = 54; 13,0%). No total, 400 pacientes (68,6%) relataram hábitos de ranger e/ou apertar os dentes associados ao bruxismo, com desgaste dentário clinicamente detectável. Quanto ao uso de antidepressivos serotoninérgicos (ISRS/IRSN), 53 pacientes (9,1%) relataram uso controlado, sendo 33 (76,7%) usuários de ISRS, como sertralina (n = 11) e fluoxetina (n = 27) e 10 (23,3%) de IRSN, como venlafaxina (n = 6) e duloxetina (n = 2). Dentre esses indivíduos, 43 (81,1%) apresentaram diagnóstico de bruxismo. A análise pelo teste do qui-quadrado revelou associação significativa entre o uso desses medicamentos e a presença de bruxismo (p = 0,039), assim como para a variável ocupação (p = 0,004). Em uma análise mais robusta, a regressão logística demonstrou que o uso de antidepressivos esteve associado a maiores chances de bruxismo (OR = 2,50; IC95%: 1,21–5,16; p = 0,014), independentemente dos sintomas relacionados às DTMs e ao Eixo II (estresse, ansiedade e depressão). De modo geral, observou-se alta prevalência de bruxismo entre usuários de ISRS/IRSN, com destaque para os ISRS, especialmente sertralina e fluoxetina. Conclusão: O estudo identificou uma alta prevalência de usuários de antidepressivos serotoninérgicos (ISRS e IRSN) com bruxismo, com destaque para aqueles medicamentos inibidores da recaptação apenas da serotonina, como sertralina e fluoxetina. Além do fator farmacológico, observou-se também maior prevalência de bruxismo em estudantes universitários e em mulheres, apontando para a influência de variáveis psicossociais e de gênero na manifestação desse hábito. Portanto, os resultados ressaltam a importância de considerar o histórico medicamentoso no diagnóstico do bruxismo e reforçam a necessidade de um acompanhamento multidisciplinar para identificar alternativas terapêuticas que minimizem os impactos negativos do uso de ISRS/IRSN sobre a saúde bucal e a qualidade de vida dos indivíduos.
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